Em 1986 eu e Eduardo Reck Miranda nos conhecemos no curso de música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e logo em seguida montamos o Tupiniqarte, um dos primeiros laboratórios de música eletroacústica do Brasil. Nosso
equipamento era de uma singeleza pueril: um órgão eletrônico, um Sinclair ZX-81, um MSX com uma interface SFG05 da Yamaha e muitas outras tralhas musicais, como se pode ver na foto acima. Montamos uma performance chamada
Apóskalipse que foi apresentada no Instituto de Arte da UFRGS, na Companhia de Arte (lançamento do número 9 da revista
Cobra) e em um bar do qual não me lembro o nome mas acho que era na Protásio Alves próximo à Lucas de Oliveira, em Porto Alegre. Depois disso continuamos trabalhando junto em alguns projetos musicais e logo em seguida - 1992, eu acho - o Miranda foi morar na Europa. Atualmente ele mora na Inglaterra e trabalha no
Interdisciplinary Center for Computer Music Research (dê uma olhada para ver que trabalho porrada ele faz por lá!).
O áudio da performance
Apóskalipse se perdeu no tempo mas alguns outros foram preservados. As amostras de áudio estão logo abaixo para download, bem como as fichas técnicas e algumas considerações sobre as músicas.
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Ópera Pu Versão 89 (Eduardo Miranda e Moysés Lopes)
Ópera onomatopaica para o bailar dos camacuãsO
Miranda apareceu com este nome e eu não tenho a menor idéia de onde ele
o tirou. À medida em que as idéias foram surgindo fizemos as gravações
e as superposições dos materiais utilizando um Tascam Porta Two. Na
primeira parte eu canto um texto que foi extraído de um livro chamado
Livro do Exército Branco de Oxalá. Há uma segunda parte na qual
enlouquecemos e resolvemos fazer um rockzinho dos mais fuleiros. Nesta
parte o Miranda canta um texto extraído do
Vocabulário Tupi-Guarani -
Português, de Silveira Bueno.
Recursos utilizados:
- Percussões metálicas
- Percussão em panela com água
- Cano de PVC (utilizado como berrante)
- Bolinhas de gude no jarro de vidro
- Programações na SFG05 Yamaha em um MSX Gradiente
- Voz
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Ópera Pu Versão 90 (Eduardo Miranda e Moysés Lopes)
Ópera onomatopaica para o bailar dos camacuãsEsta
versão não chegou a utilizar material gravado da outra. Aproveitamos
algumas idéias como a percussão em panela com água e o berrante de PVC,
mas foi só. Assim como na gravação de
O Boi, aqui utilizamos também
um CP400 com o CSound pilotado pelo Miranda. Parece que desistimos de
nossas performances vocais pois aqui não há nenhum trecho cantado. Esta
versão é muito diferente da versão de 89
Recursos utilizados:
- CP400 com CSound
- Água no balde
- Bolinhas de gude no jarro de vidro
- Percussão em panela com água
- Harmônica (gaita de boca)
- Violão
- Cano de PVC (utilizado como berrante)
- Teclado de brinquedo
- Assovio
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O Boi (Eduardo Miranda e Moysés Lopes)
O Boi é uma peça bastante intrincada. Nesta peça o Eduardo
Reck Miranda pilotou um CP400 utilizando CSound para
fazer o ostinato que inicia a peça. Logo depois aparecem rodas de
carreta (que eu acredito terem sido gravadas com microfone) e um
berrante que nada mais era do que um cano de PVC. Há toda uma
elaboração filosófica no discurso musical que conduz a uma reflexão
sobre o "politicamente correto" no trato com os animais. Há também um
som de música sertaneja (das boas!) que eu acho que foi extraído de um
disco. Utilizamos também uma viola de 10 cordas com ressonadores de
metal para fazer algumas das seções. Notem que a superposição de vozes
só foi possível em virtude da utilização do Tascam PortaTwo, com
utilização de técnicas de ping-pong e superposição de tracks, coisa que
hoje em dia qualquer software faz com uma mão nas costas. Esta gravação
é de novembro de 1989.
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Baby (Eduardo Miranda e Moysés Lopes)
Baby foi gravada em
janeiro de 1990. Utilizamos uma guitarra levemente desafinada e um
tecladinho de brinquedo. Eduardo Reck Miranda cantou esta pérola de
improviso (acreditem!!) e depois eu coloquei uma segunda voz. O
resultado ficou fantástico, é uma das minhas preferidas. Notem os
cachorros latindo ao final, deu trabalho ensaiá-los mas acho que eles
se saíram muito bem.
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As Flores - Suíte esquisita em quatro pedaços (Moysés Lopes)
As Flores é uma composição finalizada em 12 de janeiro de 1992. Possui quatro partes distintas onde utilizei dois textos. O primeiro deles eu acredito que produzi previamente mas o segundo eu acho que saiu de improviso mesmo.
Recursos utilizados:
- Programações da SFG05 no MSX Expert da Gradiente
- Guitarra com Chorus
- Ruídos produzidos com a boca captados por um microfone com delay
- Voz processada (não consigo me lembrar com o quê)
- Violão
Primeiro textoAté mesmo o linguado
Poderia ter me perguntado
O que diferem ódios e amores
Que não esteja nas pedras ou nas flores?
Se pedras e flores
Contém seu próprio reverso
Que mistério é esse que as torna
Essência de nosso universo?
Segundo textoPreciso saber o que são flores
Pai, liga o piano que as pedras a TV vai jogar
A dificuldade inexiste com as pedras
As flores é que não sei
Só sei é que são coisas
E a previdência não é flores
Bota música da chuva
Nem que seja marcha-soldado
Se tem rombo te deram cano
Como sou feliz por ser latino-americano
Ai, latino-americano, ai ai ai ai ai
Latino-américa de sangue e suor
Ai ai ai quanto suor, sangue, sangue
Trabajo, suor, sangre ai, sangre
Puta merda só suor só trabajo, só sangre ai que mierda
Que mierda, latino-américa
Ai só sangre, ai só suor, ai ai ai
Como reclama esta gente, ai
...
Que mierda
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Cebola01 (Moysés Lopes)
Sinceramente não sei porque esta é a Cebola01 se não há
Cebola02 ou coisa parecida. De qualquer forma mantive o nome original.
Esta música foi finalizada em janeiro de 1990 e os recursos são
guitarra, percussão sintetizada, voz e cordas sintetizadas. O texto é
uma mistura de Tupi-Guarani com latim, e hoje não tenho a menor idéia
do significado, e duvido que na época eu soubesse.
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Save The Anta (Moysés Lopes)
Finalizada em 26 de agosto de 1990 esta peça
utiliza alguns samplers obtidos provavelmente do rádio ou da televisão.
Os pássaros eu acho que os peguei de um LP antigo o qual eu pilotei com
a mão para alterar a execução. A parte II não tem nenhuma ligação com a
primeira e eu não me lembro o motivo pelo qual decidi deixá-las junto.
De qualquer forma eu gosto muito desta faixa.
Recursos - Parte I
- Barulho de multidão e pássaros
- Loops de piano com cara minimalista (provavelmente influência do Phillip Glass)
- Guitarra sintetizada
- Guitarra de verdade (desafinada, é claro!)
Recursos - Parte II
- Programação de bateria
- Synths de piano e metais
- Voz
A letra da segunda parte é a seguinte:
Esta é difícil de acreditar
Mas lá está ela
A Sociedade Cultural Antropofágica Ecológica Save The Anta!
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Batman (Moysés Lopes)
Esta música foi concebida e realizada utilizando um computador Z80 (um MSX da Gradiente, chamado Expert) e uma interface de áudio SFG05 da yamaha em outubro de 1989. Escrevi as partes no software de notação da interface e o som era gerado pela CPU. Ao final há uma gargalhada que eu gravei com um microfone e mixei utilizando um Tascam PortaTwo. O discurso está baseado em um argumento, como uma história em quadrinhos. Há caras bons e caras maus e inclusive uma perseguição de um helicóptero e um carro, com direito a tiros e até mesmo um bazucaço no final.

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